08 maio 2009

A protecção das espadas


Confesso sentir protecção quando vejo o exército nas ruas. Porém, sei que há exércitos e exércitos: uns que intervêm apenas para fazer rematados como tremendos disparates, atirando países para precipícios (não quero dar exemplos, os portugueses sabem-no por experiência própria desde 1820); outros atando, amparando e protegendo o Estado e o povo. As ruas de Banguecoque estão cheias de tropa. Gosto. Assim durmo descansado. Como seria bom ver tropa em todas as esquinas de Lisboa, em vez dos meliantes e vendedores de drogas que passaram a fazer parte cativa da paisagem urbana portuguesa.


Last Samurai

07 maio 2009

Naufrágios


As fotografias têm muito que contar. Nelas, o tempo parece ter-se imobilizado, mas a enganadora ilusão depressa se desfaz quando a nossa curiosidade em saber o fim da história nos leva a sair da imagem e saber o que aconteceu aos fotografados depois de se fechar a retina da câmara. As fotografias contam vidas, alimentam memórias mas são também excepcionais documentos históricos que raramente enganam aqueles que têm o olhar treinado para as imagens. No caso vertente, a história é memória vivida. Recebi-a do meu irmão Nuno, que as vai guardando como o fogo que os romanos, nossos bisavós, levavam do Lácio para os novos lares nas distantes províncias de colonização. Olho para o retrato de família, tirado em 1970 pelo meu Avô paterno e vejo o Nuno, a Ângela, o Pedro, a Paula sentada nos meus joelhos. Foi na Namaacha, pequena vila fronteiriça perto da Suazilândia, para onde os meus avós se mudaram para aí gozarem os anos da reforma. Como na vida raramente podemos prever o futuro, os meus avós não gozaram na Namahacha o sossego a que aspiravam, nós não ficámos na terra em que havíamos nascido e os nossos caminhos foram brutalmente atalhados pelo imprevisto. Parece que neste retrato dos juvenis da família vejo tantas fotos que fazem dos anos 30 do século passado uma sofrida deambulação pelos sendeiros do sofrimento e de vidas mutiladas pelas tragédias da história. Parece que nela revejo os últimos sorrisos antes da catástrofe iminente, que ninguém previa, muito menos as crianças fotografadas. Quatro anos antes do fim, antes de perdermos o direito à pátria, antes de nos separarmos pelas partidas do mundo. O belo jardim transformou-se num matagal, a casa foi escalavrada, os seus moradores empurrados para a valeta da história. Parece que me vejo metido à força num daqueles contos sem esperança e sem apelo de Virgil Gheorghiu.

05 maio 2009

O Rei na oficina


Fui a uma oficina de marcenaria com uma cadeira que pedia nova palinha. Lá estavam os trabalhadores vergados sobre o trabalho, cansados e suados. Eram quase seis da tarde e o dia de trabalho estava a terminar. Quando soou a campainha, desabotoaram os fatos sujos de óleo e poeira e dirigiram-se para a porta. Um a um, antes de abandonar o local, cumprimentou com as mãos em forma de prece o retrato do Rei. Foi ontem, véspera do 63º aniversário da entronização do Rei. As pessoas pequenas e humildes sabem-no: o Rei é o único homem em quem podem confiar. As monarquias são populares. Só se lhes opõem os ricaços ambiciosos de mais poder e aqueles, pobres e deserdados, que cairam nas teias da alienação comunista. A monarquia é um formidável dique contra o dinheiro sem escrúpulos e contra a luta de classes. Ou não é o Rei o mais antigo trabalhador do país, sem direito a reforma e atado à sua tremenda responsabilidade desde 1946 ?

04 maio 2009

Revoltante paternalismo


Se o racismo é coisa repugnante que sintomaticamente só parece agarrar seguidores entre os mais desclassificados elementos de uma raça - os que maior número de dúvidas carregam a respeito das suas qualidades individuais, escudando-se numa confortável generalização para não terem de se olhar ao espelho - esse outro racismo que dá pelo nome de paternalismo é revoltante, pois estriba-se num preconceito de superioridade escondido que trata de olhar com altaneira bonomia as restantes raças. Se um é brutal, o outro é hipócrita; se um é grosseiro, o outro é artificial; se um é reles, o outro é mentiroso.

A campanha promocional de Obama e da sua mulher - já tida como cânone universal de beleza - é dessas coisas que fazem o retrato acabado da falsidade instituida como regra. O pensar correcto é, sempre, uma violação das diferenças constitutivas e enriquecedoras da humanidade, pelo que lavrar elogio (ou o seu oposto) a respeito de um homem pelo facto de ser negro, amarelo ou branco constitui insulto ao homem singular e intolerável demonstração de minimização do grupo étnico a que este se vincula por nascimento. Obama terá de ser julgado, elogiado ou contestado pela obra que fará, não por ser negro. O nóvel presidente ainda nada fez, mas as sirenes do paternalismo trompeteiam aos sete ventos os mais descabelados e irrazoáveis panegíricos. A verdade é que, se Obama morresse hoje, nada teria para deixar e dele só ficaria a nota - absolutamente irrelevante para um não-racista - por haver sido o primeiro presidente negro da história do Ocidente.

A ignorância tem destas coisas, pois lembraria aos mais afoitos paternalistas que Portugal teve no século XVI os primeiros bispos negros, no século XVII um grande diplomata e príncipe das letras que dava pelo nome de António Vieira - mulato muito escuro - e no século XVIII o primeiro primeiro-ministro misto da Europa. Obama passa, assim, como produto promocional sem novidade, apenas tido como excepção para os ignorantes da história portuguesa. Lembro que Ronald Daus - historiador de grande foôlego infelizmente pouco conhecido do público português - estudou durante décadas a antropologia racial portuguesa dispersa pelos azimutes do planeta e chegou a conclusões espantosas. O império português foi, durante séculos, mantido, regido e administrado por negros, indianos, chineses, mistos de todos os cruzamentos e até, pasmem-se os ouvidos pudibundos, por escravos. Foi esse o segredo da nossa longevidade. Ao quebrá-lo, em 1820, com a invenção da cidadania - e depois, com a criação das colónias e províncias ultramarinas, acto de estupidez a reboque o colonialismo europeu - perdemos essa grandeza que nos fazia detestados e temidos pelos inimigos de Portugal.

03 maio 2009

Impingir drogas ou o Estado contraditório

Realizou-se ontem no Porto um ajuntamento pró-consumo de marijuana. O grupo não ultrapassaria o meio milhar, mas um jornal afoito ali quis ver meio milhão de entusiastas do cannabis. Não me interessa se a erva tem ou não faculdades terapêuticas, se contém ou não vinte vezes mais amoníaco que o tabaco, se provoca ansiedade, depressão, doenças da coronária e padecimentos neurológicos, ou ainda se constitui consumo propedêutico a drogas duras. Para amenizar, desculpar e até dourar a pílula, lá vêm os antropólogos, os sociólogos e demais merlins das ciências ocultas afirmar que o cannabis possui uma "dimensão cultural", que era apanágio de xamãs e fartamente consumido nas festividades da Antiguidade. Toda esta campanha pela legalização de tal mistela levanta-me interrogações. Depois de traficado nas ruas, parece que o Estado quer lançar mão do monopólio do tráfico, tributando-o como o tabaco e o alcoól e convertendo-o em fonte acrescida de receitas. Ora, a conduta do Estado deve ou devia possuir uma dimensão ética. Sabemos que o Estado aberto funciona de forma incoerente, oferecendo a liberdade aos indivíduos para se maltratarem e concomitantemente abrir as bolsas às campanhas preventivas e ao alargamento desse monstro tragador da riqueza colectiva que dá pelo nome de SN de Saúde. É assim o Estado liberal: oferece a morte com a mão esquerda e a vida com a mão direita; em suma, a serpente a engolir a própria cauda.