13 novembro 2012

Alter-história: D. Manuel II encheu auditório da Biblioteca Nacional


Um quarto de hora antes da sessão, sala cheia para prestar tributo a Dom Manuel II

Não houve cadeiras para todos quantos, em hora de ponta, contrariando o derrotismo, o quebranto e as lamúrias de um tempo de cinzas, acorreram esta tarde à Biblioteca Nacional de Portugal para ouvir o Professor Artur Anselmo discorrer com graça, erudição e precisão sobre a figura do Rei Dom Manuel II, patriota, homem limpo, bibliófilo e bibliógrafo de renome internacional, cuja obra continua, oitenta anos após a sua morte, a reunir a aclamação de quantos se interessam pelo livro antigo português. Apresentado pelo Professor Nuno Pombo, presidente da Real Associação de Lisboa, Artur Anselmo riscou o retrato psicológico de um homem que dedicou a vida a servir Portugal. Como monarca empurrado para o doloroso exílio; logo como estudioso da história portuguesa, colecionador de incunábulos e autor de Livros Antigos Portugueses - ainda hoje referência obrigatória para a história do livro e dos alvores da imprensa em Portugal - D. Manuel II foi um modelo de seriedade, ponderação e serviço. 


A primeira parte da exposição dedicou-a o conferencista à biografia do Rei. Servindo-se de copiosos exemplos retirados da epistolografia trocada entre D. Manuel II e nomes de primeiro plano da vida académica portuguesa do primeiro quartel do século XX, ofereceu a imagem de um homem prudente, que nunca se imiscuiu na intriga política, sempre protestou  lealdade ao seu país e colocou acima dos seus direitos a paz, a unidade nacional e os supremos interesses da pátria. D. Manuel, disse Anselmo, é hoje unanimemente reconhecido por monárquicos e republicanos como um fiel intérprete do interesse colectivo. No exercício, como no exílio, foi um monarca sempre em busca do equilíbrio. Fiel ao juramento como monarca constitucional, compreendeu que a Restauração - a ocorrer - só poderia ter origem no apaziguamento e extinção dos ódios velhos que dilaceram a sociedade portuguesa desde 1820. Em 1916, quando Portugal interveio na Grande Guerra, D. Manuel II pediu a união de todos os portugueses, decretou trégua política, pediu aos seus apoiantes que se alistassem no Exército e foi intermediário entre o governo português e os Aliados.


Mas a biografia intelectual de D. Manuel II foi, talvez, ainda mais rica e perdurável. Homem cultíssimo, fez avant la lettre estudos de história do livro, num tempo em que tal área do saber ainda mal dera os primeiros passos. Intuitivo e certeiro nas questões que levantou na vasta obra historiográfica que deixou, infelizmente inconclusa, D. Manuel II determinou as condições para um conhecimento seguro sobre a instalação da arte negra (tipografia) em Portugal. Anselmo acrescentou que, ainda hoje, a obra deixada por D. Manuel II emparceira com os nomes mais marcantes da história do livro - Vitorino de Pina Martins, Francisco Leite de Faria, João Alves Dias - e que, sem uma ruga, é repositório de saber que exige a atenção dos historiadores da cultura portuguesa. D. Manuel II gastou o que tinha e não tinha para reunir a segunda maior coleção de obras de tipografia portuguesa dos séculos XV e XVI, apenas superada pela existente na Biblioteca Nacional.  Deixou-a em testamento ao seu país e hoje a livraria do Rei encontra-se em Portugal, à guarda da Fundação da Casa de Bragança.
Um fim de tarde de grande elevação cívica e patriótica, quase fazendo esquecer a decadência do Portugal de hoje. Se o país tivesse seguido o exemplo daquele bom, honesto, inteligente e sensato jovem monarca, hoje estaríamos certamente mais cultos, mais serenos, prósperos e civilizados.


3 comentários:

ana disse...

Onde estão os jovens?

Combustões disse...

Isso digo eu- Onde estão os jovens que se interessam por cultura?

Duarte Meira disse...

Justíssima homenagem.

Pena que o jovem Manuel estivesse bem preparado para tudo menos para ser rei naquelas improvisadas e trágicas circunstâncias do pós-1908. Depois, se ainda fora vivo, quem sabe se quando Carmona morreu em 1951...

A morte prematura, o exílio, o assassinato... Parece que há, desde Sebastião, um negro fado a pesar sobre uns poderiam ter sido dos nossos melhores reis!... (Incluído o veneno que matou o boníssimo e grandíssimo João VI, ainda tão mal compreendido e estimado dos lusíadas deste lado do Atlântico!)

El-rei D. Manuel não se foi sem nos ter deixado uma herança preciosa. E mais que uma herança, um sinal de caminho para o futuro.

O Miguel Castelo Branco, como documenta o jornal macaense, trabalha essa herança e segue honrosamente esse caminho. Não se distraia com ilusões políticas duma velha política que acabou. A Monarquia Portuguesa está viva e viverá, mas por vias novas, inesperadas. (E de todo
inatacáveis a tiros de pistoleiros.)