18 novembro 2012

Na rua também se vota


Em 1908, para demonstrar que a maioria esmagadora do país estava com a Carta e com o legítimo governo do Rei, Lisboa saiu pacificamente à rua em defesa da normalidade e das liberdades políticas ameaçadas pelos grupos terroristas republicanos.

Desde que Portugal se começou a desconjuntar, ou seja, em 1820, que a violência tem sido aplicada com uma regularidade quase geracional, com o argumento de que as mudanças, a ocorrerem, só se podem produzir mediante ruptura. Seria ocioso enumerarmos a sucessão de acontecimentos que desde o século XIX ao presente exprimem essa constante adesão de minorias a soluções expeditas. Para os adeptos da violência como instrumento da acção política, o derramamento de sangue anula ipso facto a legitimidade de quem governa e o império das leis, justificando o momento excepcional. Há, latente ou expresso em alguns sectores da vida política portuguesa, um desprezo quase epidérmico pela crença básica da cultura e do método democrático (como do liberalismo) que se funda na aceitação da vontade da maioria como premissa para o consenso/ contrato social. Hoje, calcando resultados eleitorais que datam de há pouco mais de um ano, essa tentação putchista, esse desrespeito pela voz das urnas e da representação saída das eleições de 2011 assume proporções quase indecorosas. Há gente que só aceita a legalidade se tiver por si a maioria. Há gente que se considera democrática, conquanto os outros se lhes submetam. Os resultados de 2011 são trocados ao desbarato por sondagens, os deputados da maioria desrespeitados por comentadores pagos e sem qualquer mandato, o governo e os seus ministros permanentemente insultados por gente que nada é.
O governo parece não se ter dado conta que os seus adversários já passaram da acção parlamentar para o escrutínio das ruas. Seria interessante saber se as forças que apoiam a maioria estão dispostas a uma prova de força nas ruas e, assim, neutralizar uma escalada que poderá vir a justificar uma ruptura anti-democrática em nome da "vontade geral" de partidos e grupos, que juntos, não ultrapassam 1/5 do eleitorado.

2 comentários:

Luciano disse...

Aqui no Brasil me parece que a questão é uma certa inacessibilidade ao poder pelos eleitores e representados; os governantes e representantes eleitos, uma vez aninhados no poder, cuidam de atuar de acordo com os setores que os financiaram a campanha eleitoral e muitas vezes dão guarida ao que há de mais corrupto em nosso país, e não mais respondem ao interesse da comunidade.

Pedro disse...

Pois tem imensa razão. E repare na informação da TV estatal. Quantas vezes vê o Primeiro Ministro na RTP sem estar debaixo de fogo dos jornalistas ? Agora compare a presença do PNM nos telejornais com a presença dos representantes do bloco de esquerda nos boletins noticiosos . Estes ùltimos estão nas notícias quase todos os dias. O Primeiro Ministro nunca. E o Bloco teve 5% . O PSD 38% . Mas quem ocupa os telejornais ? No dia anterior à vinda de Merkel, as noticias sobre o bloco ocuparam 20% do telejornal. ( 9 minutos em 45 ). Essa é a democracia dos jornalistas. Enfiam-nos pela boca abaixo quem eles querem.