14 dezembro 2012

Isabel Jonet e os palradores


Continua a via sacra de Isabel Jonet. Três senhores, rotundos e loquazes, discreteando por uma longa hora bem estipendiada sobre solidariedade e caridade. Lobo Xavier no papel de advogado, nem bem nem mal, António Costa menos mal e até com uma pontinha de simpatia, Pacheco Pereira odioso, sem cura possível para a erisipela vermelhusca que não desgruda e que de quando em vez lhe prega partidas de emerrepêpismo.
Jonet a pagar o preço pelo Bem que não veste a camisola vermelha das boas causas da santidade laica. Esta mulher tem alimentado dezenas de milhares, tem sido agasalho para a fome, a esperança para os abandonados, o aconchego para os desesperados. Ali não há fundos do Estado, não há agenda política, um cargo a filar, os louros de um prémio a receber. Trata-se de caridade - sim, caridade e não "solidariedade" -  amor ao próximo e mandato da consciência. Num país de palavrosos inconsequentes, de teóricos e de elites  presunçosas, Jonet é granítica, enorme, uma exemplar e teimosa força merecedora de um tapete de flores. Devia circular pelas ruas sob uma estrondosa e torrencial salva de palmas. Mas não, em Portugal, há sempre um Pacheco a espumar raiva, a perorar sobre sociologias, "conceitos" e "ideias".
Como em tudo, há pessoas que fazem, outras que não fazem, não querem fazer nem sabem fazer; outras ainda que só sabem desfazer. No género humano, tão previsível, há os que são talhados para dar, outros para receber. Jonet é líder, deixa. Os seus detractores, esses, criticam, amarfanham e querem a todo custo ver-se livres daquilo que não suportam. 

6 comentários:

JdB disse...

Duas notas prévias:
1) sou amigo de Isabel Jonet;
2) sou presidente de uma instituição particular de solidariedade social.
Não vou comentar mais do que já fiz este voragem persecutória e esquerdista contra as declarações que a Isabel foi fazendo. Mas li o seu texto e tendo a discordar num ponto que, na minha óptica, está longe de ser um pormenor (passe a presunção). A Isabel Jonet está à frente de uma organização credível e importante, que ajuda milhares de pessoas. Estou certo que terá deixado a sua boa marca no modo de funcionamento do BA. Mas, em bom rigor, o mérito deve ser atribuído ao BA e aos milhares de voluntários que se entregam à causa sem querer saber de quem está à frente da organização.
O seu texto laudatório da Isabel Jonet é perigoso e injusto. Perigoso porque fulaniza o Banco Alimentar, enfraquecendo-o; injusto porque desvaloriza tudo o resto.
Tal como já escrevi, e salvaguardadas todas as diferenças, tanto a Isabel Jonet como eu somos presidentes forçosamente temporários de algo que é maior do que nós. No meu caso, felizmente.
JdB

Combustões disse...

Caro JdB
Não querendo esquecer o empenho de todos os voluntários do BA, julgo que Isabel Jonet é o rosto dessa notável organização.

JdB disse...

Caro Miguel,
Não vou querer polemizar consigo, pese embora o interesse intelectual. A Isabel Jonet é, seguramente, como diz, o rosto do BA. Mas não é a principal obreira - embora a importância dela seja inegável e louvável. "Dar" um rosto tão marcado ou tão notório a uma IPSS é um risco grave, talvez por aquilo que o Miguel refere. Às tantas a Isabel Jonet é o BA, sendo que a inversa é verdadeira. O que acontece quando o elo mais fraco cai?
Obrigado.
JdB

jorge.oraetlabora disse...

Com todo o respeito, mas sinceramente, não entendo o que Sr. JdB pretende dizer...

Duarte Meira disse...

Caro Miguel:

Excelente e justiceiro texto. Parabéns.

JdB disse...

Não querendo ocupar demasiadamente a caixa de comentários, aqui vai uma tentativa de explicação para o jorge.oraetlabora que, presumo, não tenha entendido o meu 2ª comentário.
Usei a expressão "fulanização" no sentido da colagem excessiva de uma IPSS a uma determinada figura. Algumas associações cresceram assim, nomeadamente a Sol e a Abraço. De facto, as associações eram, sobretudo, o rosto das suas dirigentes. Outras IPSS são mais "anónimas", isto é, a maior ou menor visibilidade está na obra e não nos/nas dirigentes. Que não se infira que umas funcionam melhor do que outras. Tem a ver, sobretudo, com a forma como crescem, com a personalidade do seu dirigente.
O risco num modelo "fulanizado" (e a expressão, confesso, não é bonita) é que a imagem da IPSS está muito associada (mesmo que injustamente) à imagem do seu dirigente. Se o dirigente tem um momento menos feliz (ou um particularmente infeliz, o que não é o caso de IJ) ou se alguém interpretada erradamente o que foi dito, há uma colagem à IPSS. Veja-se a imbecilidade das pessoas que disseram não contribuir para o BA enquanto lá estivesse a IJ.
Felizmente o BA tem uma enorme credibilidade, mas, numa IPSS mais pequena, um deslize de um dirigente pode "matar" uma associação. Há casos.
Alonguei-me, pelo que peço desculpa. Espero ter sido claro, o que não elimina a discordância.
Obrigado.