28 dezembro 2012

Lições da Restauração para a crise actual


Para os mais experimentados leitores da história portuguesa, torna-se evidente que a actual crise será, talvez, a segunda maior aflição colectiva que o país experimenta desde a Guerra da Restauração. Infelizmente, persiste o mito [anti-histórico] segundo o qual as crises não se repetem. Não se repetem na forma e nos factos, mas repetem-se nas circunstâncias que concorrem para os acontecimentos. Se as manifestações são sempre distintas de época para época, devia ser estudado o modus faciendi para lhes pôr um fim. Ora, havendo entre nós um desconhecimento quase generalizado das coisas do passado, não é de estranhar que governantes e governados se sintam impotentes perante a magnitude dos desastres que nos assaltam. 

O estudo da polemologia e dos acidentes militares da Restauração é coisa apaixonante. Portugal venceu então grandes desafios e a longa guerra revelou uma sociedade capaz de levar a extremos de heroísmo a defesa da sua liberdade. Contudo, a Restauração foi, sobretudo, um continuado esforço no exercício da boa diplomacia - captando simpatias externas para o reforço dos direitos portugueses - e do bom comércio. Para o sucesso da diplomacia concorreu o preparo das embaixadas, a escolha dos parceiros, a selecção do escol que representou o país. Para o sucesso da política económica, foi relevante aquilo que hoje dá pelo nome de "maximização" dos recursos, mercê da facilitação do acesso e fixação de estrangeiros no país, do baixo preço da tributação nos portos e no trato, da segurança garantida e da formação de agentes comerciais que permitiram abrir novos mercados aos produtos portugueses. Em terceiro lugar, a Restauração foi possível graças ao aprofundamento da dimensão ultramarina: Angola e Brasil assumiram lugar destacado.

Fazendo a possível conversão para o quadro hodierno, todas as políticas que favoreçam a fixação de interesses estrangeiros em Portugal - corresponsabilizando-as pelo sucesso da nossa economia - todas as políticas que visem diversificar os parceiros diplomáticos e comerciais, assim como o esforço legislador que torne atractivo investir com segurança, levarão à repetição do bom sucesso da crise 1640-1667. Isto quer dizer: uma diplomacia moderna e de elite, abatimento da má legislação, promoção dos nossos produtos, reforço prioritário das relações com o Brasil e Angola. Tudo o mais virá por acrescento.

6 comentários:

Lionheart disse...

Por acaso faço mais a comparação com as guerras peninsulares, até pelo impacto que a actual crise tem em Portugal, equivalente a uma guerra. Aí Passos Coelho não exagera. Novamente Portugal entra-se perante um dilema estratégico em que os poderes exteriores não o deixam manter-se como estava (umas vezes pelo pior, outras nem tanto). Nos anos 70, o sistema internacional não permitiu que Portugal mantivesse as colónias. Depois a situação política na metrópole levou ao pior desfecho possível para os interesses portugueses.

Agora o equivalente são os activos do Estado, com os credores a impor as privatizações, restando saber como Portugal vai conseguir equilibrar os "pratos". Parece estar a querer fazer "equilibrismo" (EDP para a China, ANA para a França) restando saber como se desenrolará o processo da TAP, a jóia da coroa, pelo que representa para Lisboa e todo o país. Não a podendo manter na posse do Estado, nem com capital "português", importa tentar assegurar compradores que tenham interesse em manter Lisboa como plataforma previligiada para o Atlântico Sul. E aí entram os brasileiros e tudo aponta para que Efromovich seja um testa-de-ferro destes. Mas tinham que vir os vendidos do costume, fazer o jogo da "Europa". Enquanto Lisboa não ficar reduzida à importância de Vigo, não descansam.

Duarte Meira disse...

« a segunda maior aflição colectiva...»

A comparação, se me permite, deve ser feita antes com 1578, quando nos enterrámos em Alcácer Quibir. Agora, também foi por nós próprios que nos enterrámos, nos anos 70, não por causa do "sistema internacional", indibitavelmente adverso, como diz o comentador acima.

Veremos se nos podemos continuar a comparar, quanto a energias para a nova guerra da Restauração.

jorge.oraetlabora disse...

Caro Miguel,
sugiro a leitura da entrevista no site infra.

Aproveito para lhe desejar, e a todos os comentadores habituais dos seus sensatos e bem escritos textos, um BOM ANO 2013, com saúde e a Paz de Jesus Cristo Nosso Senhor.

http://www.radicicristiane.it/fondo.php/id/1697/ref/3/Dossier/Dall'URSS-all'Unione-Sovietica-Europea,-il-progetto-del-mondialismo-socialista

Lionheart disse...

Isto merece ser divulgado. Não estou a defender a Newshold. É-me indiferente a situação dessa empresa e os seus interesses. Apenas acho relevante o testemunho de Mário Ramires sobre uma das vertentes do "Socratismo". Muito, mas mesmo MUITO há a dizer sobre este período NEGRO da nossa história e que levou à lamentavel situação em que nos encontramos. A CORRUPÇÃO política, económica e MORAL, a colaboração do sistema financeiro, assim como a passividade da imprensa (domesticada pela colaboração dos bancos com o poder socialista) PERMITIRAM que o país fosse esventrado por esta gente. Tanta gente. Haja MEMÓRIA.

Num país verdadeiramente democrático isto não acontece. Ou pelo menos se acontece, tem consequências. Onde estão os "checks and balances" em Portugal? A III República é uma democracia em quê?

http://videos.sapo.pt/vztJl7WYu4mTEggBNRmI

Bonaparte disse...

Concordo com o comentador Duarte Meira, Portugal enconytra-se numa situação semelhante a que se encontrou em 1572, a tragédia de Alkacer-Kibir de hoje,chama-se União Europeia. Infeizmente, hoje nem se quer temos um D. António,nem um Conde Vimioso.
Na Restauração, os portugueses de todas as classes sociais estavam irmanados do ideal de Pátria. E isso faz toda a diferença. O que aconteceu no 5 de Outubro de 2012, na praça do município chocou apenas meia dúzia de “nacionalistas”, como eu, o País nem se quer deu conta da gravidade e seguiu em frente, rindo e cantando.

Roberto Moreno disse...

E por falar em Restauração e "Crise", sugiro uma leitura, atenta, ao conceito de ENDOECONOMIA+scribd (ver no google estas duas palavras juntas)